A decepção de quebrar a tradição, mas a superação ao poder recriar a emoção: O Quebra-Nozes.


Voltei!

Tinha sumido do blog por um tempinho, mas jamais poderia encerrar o ano sem antes passar aqui, pra gente poder compartilhar um pouco daquele nosso grande amor, que temos em comum, a dança.

Bella me convidou para escrever algo para esse fim de ano, e juntos pensamos que não poderia existir assunto melhor do que a tão famosa obra e repertorio e maior símbolo natalino no mundo do ballet clássico: “O Quebra-Nozes”.

Enquanto estudante e criança, dancei os Soldadinhos, fiz o Rei Rato, tive a oportunidade de interpretar o próprio Quebra-Nozes, e até mesmo o pai de Clara, mas cresci sonhando em um dia ser o Príncipe da Fada Açucarada. Acredito que assim como foi para várias outras crianças, o Quebra foi o primeiro ballet de repertório que eu assisti completo, por VHS, na versão do Mariinsky Theatre.

Esse ballet consegue trazer o lado infantil e ainda manter a seriedade, encantamento, e até mesmo dificuldade técnica, o que o torna tão famoso entre todas as idades.

Apesar de no Brasil não termos a forte cultura de assistir ao ballet todos os anos, em outros países “O Quebra-Nozes” é o ballet que consegue levar a mãe, o pai, os tios, os avós, e crianças, todos juntos para dar início às festividades natalinas.

“O Quebra- Nozes” foi um ballet de repertório extremamente importante pra mim, sendo bailarino do Joburg Ballet. Assim como na carreira de muitos outros bailarinos, Quebra foi a primeira vez que eu recebi um papel principal na Companhia, e logo como o primeiro elenco. A alegria de ver o meu nome recebendo esse papel foi imensa.

Lembro que na época foi uma mistura de emoções, em saber que eu estaria na Noite de Abertura, ao lado da bailarina principal da companhia, Shannon Glover, e com a Orquestra Filarmônica de Joanesburgo tocando ao vivo. Lembro que quando estreamos, em 2018, a Companhia estava produzindo uma nova versão, coreografada pela renomada bailarina sul-africana Angela Malan; nós realizamos 10 shows, e eu estive a frente da Companhia como principal por 9 shows, intercalando entre os papéis de Cavalheiro da Fada Açucarada, Rei das Neves e o Quebra Nozes; uma responsabilidade imensurável. O único show que não fui principal eu ainda fiz a Dança Espanhola – Chocolate (risos).

Sempre fui apaixonado pela obra, mas principalmente pela música de Tchaikovisky. O Grand Pas de Deux sempre foi a minha música favorita entre todos os ballets de repertório.

Acredito que todo bailarino profissional deva ter a oportunidade, em algum momento da carrerira, de ter a honra e alegria de dançar esse Grand Pas de Deux com um orquestra tocando ao vivo, pois é simplesmente surreal. Infelizmente, como em várias outras Companhias ao redor do mundo, a temporada de “O Quebra-Nozes” do Joburg Ballet, no teatro, também foi cancelada, devido as regras de distanciamento social impostas pelo governo sul-africano.

Por mais uma vez eu tinha sido escalado para os papéis principais, e até chegamos a começar os ensaios, na esperança de que tudo isso ia passar, mas a realidade foi outra, e nao houve escapatória, 2020 realmente não nos permitiu estar em contato físico com os outros.

Um exemplo da enorme perda, e consequências que a pandemia causou, foi o fato de pela primeira vez em 66 anos, o New York City Ballet não ter apresentado a famosa temporada de fim-de-ano, uma produção que em 2019 rendeu mais de 15 milhões de dólares em bilheteria, algo aproximado em mais de 77 milhões de reais, de acordo com a matéria do site Cláudia, da editora Abril.

Bom, apesar de eu não estar tão feliz por ter perdido a oportunidade de viver e dançar essa maravilhosa obra mais uma vez, tenho consciência de que não seria nada mágico tentar levar esperança e alegria para um público que estaria completamente vulnerável e em risco para contrair um vírus, em meio a essa pandemia, numa sala de teatro.

Mas assim como o coreógrafo Marius Petipa ficou doente durante a primeira produção de O Quebra-Nozes, em 1892, e teve que abandonar a sua coreografia de forma inesperada, o show ainda continuou, pelas mãos de seu assistente Lev Ivanov. Com a COVID-19 não seria diferente, pois mesmo com todos os motivos dessa pandemia, e as recomendações de segurança, o Joburg Ballet deu o seu jeitinho de performar.

O meu diretor artístico, Iain MacDonald, decidiu dar uma cara nova para o espetáculo, e fazer shows em lugares abertos, como shoppings, parques e zoológico, numa versão de Jazz, mostrando como é a verdadeira comemoração de Natal na cidade de Joanesburgo. Tudo isso fez com que nós, bailarinos da Companhia, pudéssemos ainda ter a emoção de levar o nosso o espírito natalino para as pessoas, em forma de dança.

E inspirado naquilo que alguns dizem ter sido apenas um sonho, com a Clara sendo transportada para o Reino dos Doces, eu desejo para todos nós que no ano de 2021 nunca falte tempo para sonhar, que nunca nos falte tempo para realizar, mas que principalmente, nunca nos falte tempo para reinventar. Acredito que 2020 nos ensinou que devemos sempre continuar acreditando em nós mesmos, idependentemente das circunstâncias, e que somos capazes de pensar além do que está a frente de nossos olhos.

Lembre-se: por mais que o nosso boneco de madeira possa ter quebrado, o que realmente vale são as nossas experiências, e os nossos sonhos, que carregamos para toda a vida.

Tenha um feliz Natal, e um maravilhoso Ano Novo!

Um grade abraço do Armandinho, da Bella, e de toda a equipe da Labè.


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