Os Movimentos de Catarina


Dizem que conta história aquele que ganha a guerra e,  mesmo assim, cada um conta uma história diferente.Jamais podemos tomar vertentes como absolutas. Os seres humanos têm uma obstinação imensa para descobrir todos os segredos e mistérios que o tempo cria. A história, através dos anos, é modificada e interpretada de inúmeras formas, e nos resta cogitar possibilidades.

A italiana Catarina de Médici foi quem popularizou os saltos altos, modernizou perfumes, refinou a culinária, e até mesmo levou a cultura de comer com garfo para a França. A personalidade e as características singulares de Catarina tornaram os banquetes mais populares em sua época, categorizando-os como eventos. A nossa famosa ‘balada’ já acontecia anos atrás, quando a corte resolveu começar os eventos às dez da noite e terminar às três da madrugada.

Foi ela a responsável por levar também para  a França o espírito do movimento da dança que se eternizou e hoje é conhecido por nós como  ballet clássico, a arte que possui os passos mais complexos e técnicos do mundo. Para nós, amantes do ballet, essa foi a herança mais importante que a rainha nos deixou.

Podemos considerar Catarina como a grande culpada pelo erro que tantos cometem ao pensar que o ballet clássico começou na França. A dança foi definitivamente aprimorada pelos franceses, que fizeram questão de colocar o belo e charmoso sotaque na arte, mas foram os italianos que inicialmente haviam dado vida ao movimento.  A “dancinha” , ou melhor dizendo, o “balletto”, como era inicialmente chamado nas cortes italianas no século XVI , era a  diversão idolatrada pela nobreza.

A jovem princesa, em seus 13 anos de idade, já estava planejando seu casamento e sendo ofertada para o seu futuro esposo. Apesar de Catarina ser descrita como um tanto exótica e diferente, por ser  magra, pequena de estatura, e sem feições delicadas, vários homens gostariam de ter recebido a mão dela. Com essas informações é inevitável não relacionar a personagem com o que  num futuro bem distante se tornaria um ballet romântico, aquele com idealização ao amor acima de tudo, a mulher inacessível,  etérea, inalcançável.

 O escolhido para ganhar a mão da princesa foi Henrique, duque de Orleans, que no futuro se tornou o rei Henrique II. Ele não encontrava-se muito com a sua esposa no primeiro ano de casamento, e a situação do casal só piorou no decorrer dos anos. A amante de Henrique logo surgiu e foi assumida em público, causando uma grande infelicidade na vida de Catarina.

Entretanto, existem relatos de que, na luxuosa festa de casamento, os dois tiveram um momento em que dançaram juntos e aí,  na tentativa da criação de um diálogo amoroso para aquele exato momento em que Catarina executava o que mais amava, dançar, ao lado daquele que seria o homem dela para o resto da vida, me arrisco a pensar se ela teve ao menos alguns minutos de alegria ao lado de Henrique.

Em uma forma um tanto divertida e  irônica, vejo a imagem do Rei Henrique II, cantando a música “Me Tira Pra Dançar”, do cantor e compositor Tiago Iorc, para sua esposa Catarina de Médici:“Sei não, algo me diz que eu não sei de nada, vem aqui me ensinar, vem aqui cola na minha alma. Sei lá, sabe o que é? O tempo não para, e quem se atreve, dança, quem não dança só bate palma. Vem cá, vem e me mostra o que é que falta, pra encaixar na tua, bota jogo na minha cintura...”

Era o ballet que faltava na França, a dança que Henrique pediu para Catarina ensinar. Se o rei naquela época fosse um pouco romântico, ele com certeza diria palavras similares para a sua esposa. A letra da canção e o vídeo clip de Tiago Iorc de seu novo álbum ‘Reconstrução’, lançado em maio de 2019, encaixaria perfeitamente nos pensamentos de Henrique II em seu casamento em 1533.

Catarina acreditava no ideal humanista do príncipe erudito renascentista, onde para ter autoridade era necessário mais do que armas, o mais importante eram as letras. Os espetáculos musicais eram o que a permitia expressar seus dons criativos. Apesar das evidências  de suas crueldades em cartas, a rainha ainda se desdobrava com políticas desesperadas para se manter em pé. O patrocínio às artes sempre foi uma tentativa de glorificar a monarquia, cuja  reputação estava em definhamento.

            Mesmo que Catarina não tivesse permissão para participar dos assuntos de Estado, essa figura marcante teve um papel fundamental na vida de três de seus dez filhos. Foi rainha mãe e principal conselheira no reinado desses jovens filhos, que mal podiam tomar importantes decisões em uma época de guerra civil e religiosa.

 Ficou conhecida como “A rainha que mudou a França”, e ao mesmo tempo quem tomou as piores decisões da Coroa, a culpada por ser mentora do massacre de São Bartolomeu, ao recorrer à política de linha dura, sob raiva e frustração.

E ao final, ainda na canção de Tiago Iorc, crio dessa vez a imagem de Catarina se vangloriando em palavras e conversando consigo mesma: “Viro pó, viro vento, viro todo o teu amor, todo acorde refeito no anterior,no canto que vai, no choro que vem, só a mudança é que se mantém. No caos dessa ordem que maestria, uma linda e incessante coreografia, da estrela ao teu peito, um só ritmar, quem não escuta a canção, não entende a gente dançar.”

Ela amou o que fez, ela se entregou, ela coreografou a dança e a vida com grande coragem e irreverência.

Armando Barros Júnior


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