Ser uma estrela


Repentinamente, despertou em mim um interesse de saber um pouco mais sobre as estrelas, ou melhor dizendo, algumas estrelas específicas.

Para tentar esclarecer um pouco melhor as minhas dúvidas, fui pesquisar como estrelas nascem, tempo de vida e o que causa a morte.

Explicando de uma forma bem simples e compreensível, as estrelas basicamente nascem em meio às nebulosas, que são imensas nuvens de gás e poeira, compostas basicamente de hidrogênio e hélio (um dos elementos mais comuns do Universo). Se houver muito gás, a temperatura aumentará o suficiente para “acender” o combustível nuclear e iniciar a queima de Hidrogênio (fusão nuclear), isso faz com que se libere muita energia, e assim nasce uma estrela.

Desde os tempos da escola eu já sabia que o Sol é uma estrela, sendo a mais próxima de nós, mas em minha breve pesquisa, descobri que existem outras 40 bilhões de estrelas similares. Nem todos os astros têm luz própria, mas são estrelas como o sol, que produzem energia e dessa forma emitem luz.

Tudo isso me levou a pensar qual o motivo que nos faz comparar, caracterizar e até nomear alguns seres humanos como estrelas. Assim, foi inevitável não lembrar e relacionar a estrela Sol com um grande personagem da história da humanidade.

No dia 5 de setembro de 1638 nascia o Rei Luís XIV. Cresceu completamente seguro de que a sua existência era um dom divino para o mundo. Tinha a crença de que aquele que o desobedecesse estaria desobedecendo a Deus, e que suas ordens deveriam ser consideradas divinas. Já com essas características pessoais, começo a me questionar se elas seriam o motivo de este homem ser relacionado a uma estrela. 

 

Foi um grande patrono das artes e foi admirado por suas contribuições à cultura. Com o apogeu do balé em sua era, foi apelidado de Rei Sol, por ter uma fantasia brilhante, como o grande astro, após sua participação no Ballet de La Nuit. Foi o fundador da Académie Royale de Musique, com escola de balé. Escolheu o Sol como emblema, o astro que dá vida a qualquer coisa, e que também é símbolo da ordem e da regularidade.

Durante 40 anos, Luís XIV dedicou 10 horas por dia à organização do reino e era literalmente o responsável por controlar tudo que acontecia na França. Talvez esse tenha sido um dos outros reais motivos, além do superego, por esse rei levar o Sol como um apelido qualificativo e característica principal.

Essa estrela se apagou em 1715, aos 76 anos de idade, e assim teve o mais longo reinado de toda a historia do planeta, 72 anos, uma vez que subiu ao trono com apenas 4 anos e 8 meses de idade.

 

Ainda com sede de encontrar outras comparações de pessoas com estrelas, que brilharam no universo da dança, cheguei a uma outra personalidade que também foi mencionada como tal. E de uma forma bem semelhante de como nascem as estrelas, um menino nascia em meio a poeira e nuvens de fumaça de um trem, em 17 de março de 1938. Um dos mais celebrados bailarinos do século XX, que surpreendeu o mundo e iniciou uma nova era na dança.

Este homem, bailarino, acreditava que o papel de príncipe nos balés era tão importante quanto o da princesa. Foi a celebridade mais fotografada em 1964, tornando-se literalmente uma grande propaganda. Possuía o corte de cabelo dos Beatles antes mesmo dos próprios Beatles existirem. Chamava atenção pelo jeito de andar. Alguns o consideram como o pioneiro em dançar com emoção.Teve a cortina abrindo ao final do espetáculo 23 vezes para que pudesse receber todos os incansáveis aplausos do público, quando dançou Giselle com Margot, em fevereiro de 1962. Ele dominou o cenário da dança e foi considerado uma estrela.

Até mesmo quando foi extremamente rude com o maestro da orquestra numa abertura de Lago dos Cisnes, em que ele parou a orquestra, no meio da performance, após ter caído, exigindo que tocassem novamente do começo, a crítica foi capaz de elogiá-lo como virtuoso e digno de ser assistido.

Viveu em conflito entre o medo e a auto-confiança. Fazia coisas incomuns, chocantes. Era uma pessoa difícil, de temperamento forte, sem paciência, e muitas vezes faltava com respeito aos outros. Curioso, sempre fazendo várias perguntas, foi conhecendo as pessoas certas na hora certa.

Rudolf Khametovich Nureyev, para os íntimos Misha ou Rud, foi o bailarino russo que quebrou a barreira de segurança soviética e pediu asilo aos oficiais no aeroporto de Le Bourget, em Paris, em 17 de junho de 1961.

 

Nureyev sempre soube que a Rússia era pequena demais, o seu amor pela dança era maior que o amor pela própria nação. Em Paris a sua luz interna acendeu, e ali foi a grande oportunidade que ele teve de se descobrir. A decisão de pedir ajuda e permanecer na França era um caso de vida ou morte, e ele sabia que voltar para a Rússia seria praticamente suicídio.

Essa estrela apagou-se em 6 de janeiro de 1993, aos 54 anos de idade, por complicações decorrentes da AIDS, apesar de que alguns amigos não acreditam no diagnóstico, e dizem que Nureyev e outros gays foram vítimas de um posicionamento decretado pelo governo. Sua última aparição pública foi em outubro de 1992, quando foi diretor da sua nova produção de La Bayadère.

Então, depois dessas duas comparações, entre Rudolf Nureyev e o rei Luís XIV, eu ainda sigo me perguntando qual foi o real motivo para esses seres humanos terem brilhado de forma tão singular e esplêndida em suas épocas, a ponto de terem ficado marcados na história e memória de tantos, como estrelas.

Mesmo com tantas referências me dizendo que estrelas nascem em meio à poeira e fumaça, eu claramente pude ver que esse não é o real motivo para se receber tal referência.

Ainda acho que a arrogância, auto-confianca, a força de vontade, trabalho duro, o orgulho e o ego foram algumas das características que percebi e que definitivamente prevaleceram entre os dois personagens.

Assim, irei continuar observando, tomando notas, assistindo ao ‘Good Morning America’, e esperar a apresentadora Lara Spencer, ou outro apresentador, me dizer se o Príncipe George, o futuro rei da Inglaterra, será uma grande estrela, como bailarino clássico, uma vez que o novo príncipe nasceu em uma familia de ouro, e sua auto- confiança parece ser suficiente para mostrar, com tão pouca idade, a sua paixão pela dança.

Armando Barros

 

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Expandindo o pensamento...

 

 Com a ideia de estrelas em meus pensamentos e várias datas percorrendo minha mente, me lembrei de que dias antes de Nureyev chegar à Frnça, o presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, tinha feito um discurso, em dia 25 de maio de 1961, onde ele dizia “Nós escolhemos ir para a lua”, e ainda lançou como desafio “Enviar homens a Lua e retorná-los a salvo”. Ao meu ponto de vista, em uma determinada análise de jogo e estratégia nada disso aconteceu com a URSS.

A acirrada briga, conhecida como Corrida Espacial, estava misturada em parte desse cenário. A competição de ordem ideológica, bélica, econômica e espacial aconteceu de 1957 a 1975. Estados Unidos da América e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, repletos de medo, lutavam entre si para mostrar ao mundo qual era o melhor sistema e ideologia, o capitalismo ou socialismo. E apesar de essa briga ter lançado várias estrelas para o mundo como Gagarin, o primeiro homem no espaço, ou até mesmo a cachorrinha Laika, Rudolf Nureyev foi a estrela que mais brilhou em minha humilde opinião.

Irei me explicar melhor. Em meu primeiro texto para a Labè, Movimentos de Catarina, fiz uma brincadeira de comparação. Usei uma música de Tiago Iorc para expressar a minha imaginação de quais foram os sentimentos e palavras usadas por Catarina de Médice e Rei Henrique II da França em uma determinada situação. Caso você ainda não tenha lido, confira no blog.

Para esse texto a minha brincadeira de comparação é com a cantora norte americana Ariana Grande, que fez uma homenagem a agência espacial americana. A música “NASA”, de seu quinto álbum de estúdio, ‘Thank U, Next’, lançado em 8 de fevereiro de 2019.

“Acho que estou melhor aqui sozinho esta noite. Não há como verificar quando eu chegar em casa hoje à noite, apenas me certificando de que estou bem sozinho esta noite, mesmo que não haja nada de errado esta noite.”

Ariana Grande conseguiu me conquistar nessa parte, onde é narrado exatamente o que Rud passa durante a sua turnê com o Kirov em Paris. No filme ‘O corvo Branco (The White Crow)’, lançado em 22 de março de 2019, com direção de Ralph Fiennes, é retratado e encenado o desejo de Nureyev em conhecer novas pessoas, de sair para jantar com os franceses, falar uma língua estrangeira, chegar mais tarde no hotel, e poder estar sozinho, sem ser vigiado ou perseguido por seus diretores.

“E quando eu sentir sua falta, isso vai mudar o jeito que eu te beijo. Baby, você sabe que o tempo separados é benéfico. É como se eu fosse o universo e você seria N-A-S-A.”

Aqui, posso imaginar Rud se dirigindo a URSS com sua virtuosidade e típica arrogância de sempre.Ele estava decidido a morar na França, onde ele declarava ter conquistado o Universo. A Rússia estaria então em uma constante luta, exatamente igual a maior empresa rival deles daquela época, a NASA. A agência espacial, que foi criada em 1958, era responsável por coordenar todo o esforço estadunidense de exploração espacial, e administrar o programa do país.

“Te dou o mundo todo, preciso de espaço, eu preciso de espaço. Você sabe que eu sou uma estrela; espaço, eu preciso de espaço(N-A-S-A)”.

Esse verso mostra como Nureyev ainda fez com que a Rússia ficasse mais uma vez famosa no mundo inteiro, com o seu caso, sendo pelo lado positivo para uns ou extremamente negativo para outros. Ele sempre mostrou que o que ele mais precisava era de espaço, e a cidade das luzes foi o lugar que lhe ofereceu o que ele procurava. A “Rússia” sabia que ele era um menino indomável, uma estrela. O Kirov, perdeu a sua grande estrela, e não foi para os Estados Unidos, mas para a França. A empresa NASA, citada na música, funciona como aquele sussurro no pé do ouvido russo, assustando-os e se referindo à empresa como o pior pesadelo que eles poderiam ter, a perda de poder. Eles o levaram para a lua, mas não foram capazes de trazê-lo de volta.

“Você não quer me deixar, mas eu estou tentando me descobrir. Mantenha-me em sua órbita e você sabe que vai me puxar para baixo.”

A citação de Neil Armstrong : "Esse é um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade", é uma referência também usada na introdução da música de Ariana Grande, quando a drag queen americana, Shangela, diz: "Um pequeno passo para a mulher, um salto gigante para a humanidade".

Nós poderíamos continuar brincando em fazer algumas outras comparações e trazer a orientação sexual de Rudolf como mais um assunto para a pauta, mas acredito que eu precisaria de informações mais detalhadas para dar continuidade com veracidade, mesmo sabendo que Rudolf foi aberto demais sobre sua homossexualidade nos padrões da Rússia atual.

 

Armando Barros


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